

Talo e a Sombra no Fim do Túnel
Um texugo, um ursinho sonolento e um túnel escuro que eles atravessam devagarinho, um passo por noite.
- 1A toca e o túnel comprido3:28
- 2A primeira noite: cheiro de folha seca3:33
- 3A segunda noite: barulho de vento3:24
- 4A terceira noite: um passo de cada vez3:17
- 5O outro lado da colina3:31
No fundo da colina, onde a terra é fofa e cheira a raiz molhada, ficava a toca do texugo Talo. Era uma toca redonda, forrada de musgo seco e de folhas macias. Talo tinha cavado cada corredor com as próprias patas… devagarinho, sem pressa nenhuma, do jeito que ele fazia todas as coisas da vida.
Naquela noite, o ursinho Orsan veio dormir na toca. Trouxe o cobertor de sempre, aquele que cheirava um pouquinho a mel. Enrolou-se no canto mais quentinho e bocejou duas vezes. Foi então que ele reparou numa coisa. Havia um corredor ali, bem no fundo — comprido, escuro, sem fim à vista.
— Talo… — chamou Orsan, com a voz baixinha de quem já está quase dormindo. — Aquele túnel ali no fundo… ele vai dar onde? Talo levantou a cabeça do travesseiro de folhas. Olhou para o corredor escuro, depois para o amigo, e demorou um tempinho para responder.
— Ninguém sabe — disse Talo. — Eu cavei esse túnel quando era bem pequeno e parei no meio. Porque lá no fundo… tem uma sombra. Uma sombra que respira. Ela respira devagar, Orsan. Dá para sentir o ar dela chegando na ponta do focinho. Eu nunca fui até o fim.
Os dois ficaram quietinhos, escutando. E era verdade. De vez em quando vinha do fundo do túnel um sopro morno, comprido, que fazia o musgo do chão tremer só um pouquinho. Depois parava. Depois voltava. Como se alguém, lá longe, estivesse dormindo e respirando fundo.
— E se a gente for junto? — disse Orsan, coçando a orelha. — Mas bem devagar. Um passo por noite, só um. Hoje a gente nem entra, só olha da beirada. Amanhã a gente dá um passo. Depois outro. E depois mais um. Assim o medo nem percebe que a gente está indo.
Talo pensou nisso com as patas cruzadas em cima da barriga. Um passo por noite parecia pouco. Parecia tão pouco que quase não dava medo. E era exatamente por isso que podia funcionar. Ele respirou fundo, do mesmo jeito comprido que a sombra respirava lá longe.
— Tudo bem — sussurrou Talo. — Um passo por noite. Combinado. Orsan já não respondeu, porque já estava dormindo, com o focinho enfiado no cobertor de mel. Talo puxou uma folha grande para cima dos dois… e fechou os olhos ouvindo o sopro morno ir e vir, ir e vir.
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