A Orquestra Noturna da Floresta Velha
Pronta para ouvir· Capítulo 1 de 7
A Orquestra Noturna da Floresta Velha
6+31 minpt
Pronta para ouvir
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30:56
Capítulos
  • 1A noite em que a floresta afina4:03
  • 2A patinha que chegou sem som4:48
  • 3Os grilos e o compasso3:57
  • 4O riacho leva a melodia4:33
  • 5Orsan e a nota mais funda4:30
  • 6A chuva no telhado de folhas4:24
  • 7A canção final4:41
Texto sincronizado

Texto da história

A noite em que a floresta afina
A Orquestra Noturna da Floresta Velha

A floresta velha já estava quase a dormir. As sombras tinham-se deitado entre as raízes, compridas e macias, e do chão subia o cheiro fresco do musgo molhado. Uma folha soltou-se lá em cima e desceu a rodopiar, sem pressa nenhuma, até pousar numa poça. E foi então que a floresta começou a afinar.

Acontece uma vez por ano, sempre na mesma noite — a noite em que a lua fica redonda e baixinha, quase pousada nos pinheiros. Ninguém marca a data num papel, porque na floresta não há papéis. A floresta simplesmente sabe. E, quando sabe, cada criatura acorda um bocadinho mais cedo… e escuta.

Primeiro chegaram os grilos, aos saltinhos pela erva alta e molhada. Depois vieram os sapos do charco, com a barriga fria e os olhos como duas contas de vidro. Os pirilampos acenderam-se devagar, um a um, como se alguém andasse a pôr velas pequeninas em cima das folhas. Estava tudo pronto.

No carvalho mais antigo de todos, no galho mais alto de todos, estava Nyta. Uma coruja de penas cor de casca velha e olhos brilhantes como duas luas pequeninas. Ela virou a cabeça devagarinho, para um lado — e depois para o outro, sem fazer o mais pequeno ruído. Estava a contar quem já tinha chegado.

«Boa noite, floresta velha», disse Nyta, e a voz dela era baixa e quente como um cobertor guardado ao sol. «Esta noite tocamos todos juntos, como sempre fizemos. Cada um com o seu som, o som que só ele sabe fazer… e ninguém, mesmo ninguém, com pressa nenhuma. Temos a noite inteira à nossa frente.»

O carvalho respondeu com um estalido de madeira muito antigo, desses que parecem vir de dentro da terra. O vento passou entre as folhas e fez aquele barulho de mar pequenino que as árvores fazem à noite. Nyta abriu as asas apenas um pouquinho — e voltou a fechá-las. Era assim que ela dizia: começamos.

Lá em baixo, entre duas raízes grossas e cobertas de musgo, alguém ressonava. Era Orsan, o ursinho, enrolado como um pão redondo acabado de sair do forno. Tinha uma pata em cima do focinho e um cheirinho a mel na ponta dos dedos. Orsan dormia até quando estava acordado, diziam os esquilos.

Nyta olhou para ele com muito carinho e não o chamou já. Faltava ainda bastante tempo para a nota mais funda de todas — e um urso descansado toca sempre melhor do que um urso apressado. A noite tinha espaço para tudo e para todos. Era mesmo esse o segredo daquela noite comprida.

Mas havia uma coisa que nem a coruja Nyta sabia ainda. Muito longe do carvalho, do outro lado da velha ponte de pedra, um som pequenino avançava pela erva. Não era um grilo. Não era um sapo nem um esquilo atrasado. Era um passinho molhado… e depois outro. E vinha a chegar.

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