

Tarka e a Noite Sem Estrelas
Quando as nuvens escondem todas as estrelas, a tartaruga Tarka ensina os peixinhos a se orientarem pelo ouvido — e pelo próprio coração.
- 1A noite em que o céu se apagou3:07
- 2Quando o céu apaga, a gente escuta3:09
- 3As nuvens se abrem3:09
O mar estava morninho naquela noite. Lá no fundo, entre corais redondos feito almofadas, os peixinhos pequeninos se ajeitavam para dormir. Eles sempre dormiam olhando para cima… procurando as luzinhas que tremiam lá longe, do outro lado da água. As estrelas eram o mapa deles. Uma mostrava o caminho de casa, outra mostrava onde ficava o banco de areia. E o mapa nunca, nunca tinha falhado.
Mas naquela noite veio um vento morno lá de cima. Ele empurrou uma nuvem, e depois outra, e depois mais outra — até o céu inteiro ficar coberto, como um cobertor grosso demais. A água do fundo escureceu devagarinho. Primeiro ficou cinza. Depois ficou preta feito tinta. E as estrelinhas sumiram todas.
O peixinho menor de todos abriu os olhinhos bem grandes. Ele girou de um lado. Girou do outro. Não achou nada para olhar. — Cadê o caminho? — perguntou baixinho, e a voz dele saiu tremendo um pouco. Os irmãos vieram chegando e se apertaram junto dele, barbatana com barbatana, todos quietinhos no meio do coral.
Foi então que a areia lá embaixo fez um barulhinho macio. Xxxx… xxxx… Alguma coisa grande e devagar vinha chegando, sem pressa nenhuma, do jeito de quem já andou o mundo inteiro. Uma sombra redonda apareceu entre as pedras. E os peixinhos reconheceram na hora aquele casco antigo, cheio de riscos, de manchas claras e de histórias guardadas.
— Boa noite, peixinhos — disse Tarka, parando bem no meio deles. — Ouvi um coraçãozinho batendo depressa daqui de longe. Alguém aí ficou com medo do escuro? Podem contar. Eu tenho a noite inteira, e as minhas patas são muito lentas mesmo… não vou a lugar nenhum com pressa.
O peixinho menor chegou pertinho do casco. Contou tudo de uma vez só: que o céu tinha apagado, que o mapa tinha sumido, que agora ninguém sabia para onde ir. Tarka escutou até o fim, sem interromper nenhuma vez. Depois piscou os olhos velhinhos, bem devagar, e soltou um sopro comprido que virou bolhinhas mornas subindo pela água.
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