

O Rastro Dourado de Lumiluz
Numa noite escura demais, uma criança segue o rastro dourado e quentinho de Lumiluz e descobre uma estrela escondida em cada sombra.
- 1O quarto escuro demais4:32
- 2O rastro dourado4:46
- 3As sombras que guardavam estrelas4:46
- 4O coração cheio de sol4:45
- 5O sonho cor de mel4:56
Era uma noite muito quietinha. Lá fora, o vento já se tinha aninhado nas árvores e adormecido entre as folhas… A casa inteira respirava devagar, como respira quem dorme bem. E no quartinho do fundo do corredor, a última luz tinha-se apagado havia já um bocadinho.
Era a hora de dormir, a hora mais macia de todas. Mas aquela noite — só aquela — parecia mais escura do que o costume. As cortinas estavam bem fechadas, a porta encostada com um suspiro… e nem um fiozinho de luar conseguia espreitar pela janela.
Numa caminha pequenina, debaixo de um cobertor macio e quente, estava uma criança ainda bem acordada. Os olhos muito abertos, a fitar o teto escuro. E o coração a bater depressinha, tum-tum, tum-tum, tum-tum, lá no fundo do peito, como um tambor pequenino.
O escuro tinha esticado os cantos todos do quarto, alongando-os sem fazer barulho. O guarda-roupa parecia muito maior… a cadeira do canto parecia ter ombros e braços… e tudo aquilo que de dia era amigo e conhecido, de noite virava sombra estranha.
A criança puxou o cobertor até ao narizinho, devagar, e ficou ali enroladinha. — Não tenho medo — sussurrou para si mesma, bem baixinho. Mas a voz saiu pequenina, pequenina, frágil como um passarinho com frio à procura do ninho.
E então… mesmo ao fundo do corredor… aconteceu uma coisa. Apareceu uma luzinha. Tão tininha como uma migalha de sol que tivesse ficado esquecida para trás quando o dia foi embora. Pequenina, dourada, a tremeluzir no escuro.
Não fazia barulho nenhum, nem o mais pequenino sussurro. Não piscava com pressa, nem corria de um lado para o outro. Apenas brilhava, mansa e morna, paradinha no ar… como uma brasinha dourada a flutuar bem devagar no corredor adormecido.
A criança ficou muito quieta, só a olhar, sem se mexer. O medo ainda lá estava, encolhidinho num canto do peito… mas agora havia também outra coisa, a crescer devagar. Uma curiosidade pequenininha, exatamente do tamanho daquela luz.
— Quem és tu? — perguntou baixinho, quase só com a boca. E a luzinha, como se de algum modo tivesse ouvido… balançou de um lado para o outro, com toda a calma do mundo. Devagar. Devagarinho. Como quem acena olá a um amigo novo.
Era Lumiluz. Um vaga-lume de sonho, muito mais antigo do que a própria noite. Todas as noites, sempre que algum quarto ficava escuro demais e algum coraçãozinho ficava aflito, ele acordava… e saía a voar devagar para acender de novo a coragem das crianças.
Lumiluz voou um pouquinho para a frente, leve como uma pena. E por onde passava — ouve só esta maravilha — ficava no ar um rastro dourado. Morno. Quentinho. Como o cheirinho do pão acabado de sair do forno numa manhã de inverno.
A criança sentou-se na cama, bem devagar, e o cobertor escorregou-lhe dos ombros sem fazer ruído. O rastro dourado brilhava lá ao fundo do corredor, a chamar sem dizer palavra nenhuma… — Anda — parecia dizer, com a sua luz. — Anda ver. Não tenhas medo.
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