

Dreuno e a Areia dos Sonhos
Todo anoitecer, o joão-pestana Dreuno sai de mansinho com sua bolsinha de areia mágica — e numa janelinha encontra alguém que não sabe com o que sonhar.
- 1A bolsinha de areia2:49
- 2Ouro e prata nas janelas2:59
- 3O sonho inventado2:58
Quando o sol se deita atrás dos telhados, a cidade inteira fica cor de mel. As janelas acendem, uma a uma. E depois, devagarinho, começam a se apagar. É essa a hora de Dreuno. Ele espera o último passarinho se calar — e só então abre a porta do seu quartinho debaixo da escada, sem fazer barulho nenhum.
Dreuno é pequenininho, do tamanho de um bule de chá. Usa um chapéu mole que cai sobre uma orelha e sapatos de feltro que não fazem tique nem taque. No ombro, ele carrega uma bolsinha de pano puída. Dentro dela mora a areia dos sonhos… e a bolsinha é sempre morna, como pão que acabou de sair do forno. Ele a segura com as duas mãos.
A areia não é toda igual, sabia? Se você espiar bem de pertinho, vai ver que ela muda de cor sozinha. Tem areia azul, que cheira a maresia. Tem areia dourada, que cheira a capim quente de sol. E tem a prateada — leve, leve — que sobe um pouquinho antes de cair. Cada criança precisa de um punhadinho diferente, e a areia sabe disso melhor do que ele.
Dreuno sobe a rua sem pressa. As pedras da calçada ainda guardam o calor do dia, e ele gosta de sentir isso pelos sapatinhos. Um gato o observa do alto do muro e boceja bem devagar. Dreuno tira o chapéu para ele, educadinho. Lá em cima, na primeira janela aberta, uma cortina branca respira com o vento, para dentro e para fora.
— Boa noite, janelinha — sussurra Dreuno, subindo pela hera. — Quem é que dorme aqui hoje? Lá dentro, uma menina está deitada de lado, abraçada ao travesseiro. Ela ainda mexe os dedos dos pés debaixo do lençol, como quem não quer parar de brincar. Dreuno inclina a cabeça e escuta a respiração dela.
Ele abre a bolsinha e mete a mão lá dentro. A areia se agita, se decide sozinha… e sai azul. Azul de água funda, azul de barquinho pequeno. Dreuno espalha um punhadinho no ar, bem devagar, e a areia desce como neve morna. — Uma pitadinha para você… e boa noite. Os dedos dos pés param de mexer debaixo do lençol.
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